Para Rafael Capua, COO e sócio fundador da Jump, empresas estão aumentando a capacidade de produção com inteligência artificial sem necessariamente preparar processos, infraestrutura e estruturas de decisão para acompanhar esse novo ritmo
A inteligência artificial está aumentando a velocidade com que as empresas desenvolvem, analisam, automatizam e entregam. Para Rafael Yashiki Capua, COO e sócio fundador da Jump, existe um problema que começa a aparecer justamente onde a tecnologia mais avançou: a estrutura das empresas nem sempre consegue acompanhar a velocidade criada pela IA.
“A quantidade de deliverables que a gente começou a fazer com IA é impressionantemente maior. Só que o gargalo, por incrível que pareça, passa a ser a liderança no final”, afirma Capua.
A provocação foi feita durante o painel Smart Growth, no SP2B, São Paulo Beyond Business, realizado no Parque Ibirapuera. Ao lado de Thiago Aor, sócio e CFO da Cora, e com mediação de Rafa Cappai, CEO da Espaçonave, o executivo discutiu os desafios de crescer com eficiência em um cenário no qual a tecnologia está mudando a velocidade das operações.
Segundo Rafel, a discussão sobre inteligência artificial precisa começar antes da escolha da ferramenta. “Muita gente chega no cliente e já tem na cabeça que precisa de IA. Essa nunca deve ser a primeira pergunta. A gente acredita que a primeira pergunta tem que estar relacionada ao processo, às pessoas, a quem está envolvido, para aí sim usar a tecnologia e a IA como meio”, afirma.
A mudança de perspectiva é relevante para empresas que estão incorporando IA em diferentes áreas ao mesmo tempo. Quando a capacidade de produção aumenta, processos de aprovação, infraestrutura, custos, dados e estruturas de governança passam a ser pressionados por uma velocidade que não existia anteriormente.
O problema não termina na IA
A experiência da Jump em projetos de transformação tecnológica mostra como esse descompasso aparece em diferentes pontos da operação. Na modernização de sistemas, por exemplo, empresas continuam convivendo com códigos legados que dificultam a evolução tecnológica. Para enfrentar esse problema, a Jump desenvolveu o MigrateMind, plataforma que utiliza IA generativa para avaliar, converter e validar códigos em projetos de migração.
A solução atua em projetos como a migração de SAS para Databricks, com conversão de scripts SAS para PySpark e SQL, automação de pipelines e validação paralela. A proposta é reduzir o tempo e o custo de uma etapa que pode se tornar um dos principais obstáculos para empresas que precisam modernizar seus ambientes.
Na infraestrutura, o crescimento da utilização de IA também traz uma discussão financeira. A demanda por processamento, GPUs, APIs, tokens, armazenamento e transferência de dados aumenta a complexidade da conta de cloud.
Dados da Flexera citados pela Jump apontam que 29% dos gastos com cloud são desperdiçados. Nesse cenário, a empresa também desenvolveu o OPT 3, plataforma de FinOps que monitora e otimiza custos em ambientes como AWS, Azure, GCP e Databricks. Em um caso documentado pela Jump, a solução conseguiu reduzir em 61% o custo de cloud de um cliente. Os exemplos apontam para uma mesma questão: a velocidade proporcionada pela tecnologia precisa encontrar uma estrutura capaz de sustentá-la.
De onde vem o novo gargalo
A inteligência artificial também altera a distribuição do trabalho dentro das organizações. Se um time passa a produzir mais entregas em menos tempo, a liderança recebe um volume maior de decisões para revisar, aprovar e contextualizar. O efeito pode ser uma inversão do gargalo: a limitação deixa de estar necessariamente na execução e passa a aparecer na capacidade de decisão. É uma mudança que exige revisão dos processos internos e a empresa precisa definir onde a IA pode atuar de forma autônoma, quais decisões continuam dependendo de pessoas e como a liderança consegue acompanhar o volume de trabalho produzido pelos novos sistemas.
A discussão também se conecta à governança, afinal à medida que a IA deixa os projetos experimentais e passa a fazer parte da operação, políticas de uso, rastreabilidade, monitoramento e responsabilidade sobre decisões produzidas por sistemas de IA passam a fazer parte da estrutura necessária para sustentar essa expansão.
A Jump possui certificação ISO 42001 e vem trabalhando o tema de governança de inteligência artificial em seus projetos e conteúdos, acompanhando uma mudança no mercado em que a discussão deixa de ser apenas sobre adoção e passa a envolver controle, responsabilidade e gestão dos sistemas colocados em produção.
Crescer não é apenas acelerar
A provocação de Capua parte de uma experiência prática da própria Jump. A empresa cresceu de dois para seiscentos colaboradores sem nunca captar rodada externa e desenvolveu uma cultura de produtos baseada em testes rápidos de hipóteses.
Segundo o executivo, cada nova solução é tratada como uma micro startup, com tese, prazo e critérios de validação definidos. Com um time de produtos de cerca de quinze pessoas, a Jump consegue ter uma tese pronta para ser testada com o cliente em até vinte dias.
O modelo também está por trás do desenvolvimento de soluções como o OPT 3 e o MigrateMind. A ideia é identificar uma dor concreta, testar uma hipótese com o cliente e transformar a resposta em produto.
A discussão levada ao SP2B, portanto, não é apenas sobre inteligência artificial. É sobre o que acontece com uma empresa quando sua capacidade de execução aumenta em uma velocidade que seus processos, sistemas, custos e estruturas de decisão não conseguem acompanhar. Para Capua, essa é uma das questões que devem dominar a próxima fase da transformação tecnológica: descobrir como transformar o ganho de velocidade proporcionado pela IA em crescimento sustentável, sem criar novos gargalos no caminho.
Rafael Yashiki Capua está disponível para entrevistas sobre inteligência artificial, crescimento empresarial, FinOps, modernização de sistemas, produtos de tecnologia, governança de IA e os impactos da aceleração tecnológica nas estruturas de decisão das empresas.
Sobre a Jump
A Jump é uma empresa de tecnologia especializada em transformação digital, dados, cloud, inteligência artificial e modernização de sistemas. A companhia atua no desenvolvimento de soluções próprias e em projetos de transformação tecnológica para empresas, combinando tecnologia, estratégia e execução.
